Saneamento Básico: O Muro Invisível que Descobri Fora do Meu Condomínio

A gente vive numa bolha. No meu condomínio, a grande discussão era o mau cheiro da ETE. Um problema de primeiro mundo, eu sei. A minha virada de chave sobre o que é, de verdade, saneamento básico, veio num caso pro-bono que peguei no escritório. Uma comunidade na periferia da cidade lutando pelo mínimo: água encanada e esgoto coletado.
O Cheiro da Realidade que Choca
Meu erro foi achar que eu estava preparada. Eu não estava. Lembro de chegar ao local para conversar com os moradores. O carro mal passava na rua de terra batida. E o cheiro… não era o cheiro vago e ocasional que sentíamos em casa. Era o cheiro constante e forte de esgoto correndo a céu aberto numa vala. Vi crianças brincando perto daquilo. Senti a umidade podre subir pelas minhas sandálias. Aquela cena, aquele cheiro, eles nunca mais saíram de mim. Ali, a palavra saneamento básico deixou de ser um conceito abstrato de livro e virou uma imagem, um som, um odor. Virou uma questão de dignidade humana.
A Luta que Começa com um Copo de Água Limpa
O desafio legal era imenso, uma briga de Davi contra Golias. Mas o desafio humano era maior. Como explicar para os meus filhos, que abrem a torneira e têm água potável a hora que querem, que outras crianças, na mesma cidade, ficam doentes por beber água de poço contaminado? Minha dica, se você pode: saia da sua bolha. Apoie projetos sociais. Pressione o poder público. A briga pelo saneamento básico é a mãe de todas as batalhas por um país mais justo. Voltar pra casa, tomar um banho quente e beber um copo de água filtrada naquele dia teve um peso diferente. Teve o peso do privilégio e a chama de uma nova luta.