Saneamento Ambiental: Quando a Culpa do Esgoto Bateu na Porta (e no Córrego)

Saneamento Ambiental: Quando a Culpa do Esgoto Bateu na Porta (e no Córrego)

Fonte de reprodução: Pixabay

No início, nosso problema era o mau cheiro. Era uma questão de conforto. Mas a coisa mudou de figura quando um vizinho, biólogo, apresentou um relatório na assembleia. Ele tinha coletado amostras de água do córrego que passava nos fundos do condomínio. O resultado era desolador. E o culpado éramos nós. Ali, a discussão subiu de nível: saímos do “esgoto” e entramos no saneamento ambiental.

 

O Silêncio dos Peixes e a Cor da Água

 

Meu erro foi nunca ter pensado nas consequências para além do nosso muro. Eu via aquele córrego como parte da paisagem, só isso. Não pensava nele como um ecossistema vivo. O desafio foi encarar os fatos: nosso esgoto mal tratado estava matando o córrego. A água estava turva, o laudo indicava níveis baixíssimos de oxigênio. Os peixes, que os moradores mais antigos juravam existir, tinham sumido. Lembro de levar meus filhos pra perto do córrego. “Mãe, a água tá com ‘dodói’?”, perguntou meu caçula. Aquilo me partiu o coração. A reação do meu marido, que antes achava minha “cruzada” um exagero, mudou. Ele viu o impacto nos olhos dos nossos filhos.

 

A Missão de Reviver o Nosso Quintal

 

A grande lição foi que saneamento ambiental é sobre responsabilidade com o todo. Não é só tratar nosso esgoto por uma questão de higiene; é tratar para devolver uma água limpa para a natureza. A escolha pela nova ETE, mais eficiente, foi também uma escolha pela vida daquele córrego. Hoje, o trabalho é de longo prazo. Plantamos espécies nativas nas margens. Monitoramos a qualidade da água. Outro dia, o vizinho biólogo, todo feliz, mostrou uma foto: um lambari! Um peixinho pequeno, prateado, brilhando na água que voltava a ser clara. Meus olhos encheram d’água. É esse o legado que eu quero deixar.